17 de novembro de 2011

Gato

Sigo de fora os basteadores. Era assim que começava. Amanhecer, sim, aquele traço de aldeia que se exibia na cidade, da metrópole, sim, elas ainda existem, neocolonianismo, globalização, giros conceitos. Mas não nos afastemos. Amanhecer, pequeno momento rustico na metrópole, que dizer? Dizendo, que, o gato olhou o passáro, mas ainda é novo, não reconhece por de certo os seus instintos, ou pelo menos esforça-se para entender. Vê , assusta-se? e logo se guarnece de uma posição que nunca lhe fora ensinada, e preparado para atacar, ataca, mas falha. É pequeno, tem que treinar esse seu instinto selvagem, quanto mais fome mais ele o fomentará, se o alimentar-mos, ele aborrecer-se-à, ou talvez não, três espaços , eu disse-te. nascer, viver , morrer. Mas nada disso interessa, se não disseres. E por isso espero, espero que surjas. O gato não desiste, não, ele continua a sua aprendizagem, mais ou menos correcta, se é que se pode considerar seja o que for sobre o gato, e assim como gato, sobre nós. Não desistá-mos, sei-lo. E aguardo a tua resposta. Amanhã amanhecerá novamente, o gato estará mais maduro e talvez o passáro já não escape, afinal, vá se lá saber, quem caça quem e quem é caçado, o passaro tem que ser esperto, ou nem esperto nem burro, como o gato, terá que aprender a evitá-lo. Demora. Não faz mal, estamos habituados.

15 de novembro de 2011

after the darkness comes the dawn

O acto criativo, vinha em dado livro, seria uma acto neuronal onde a informação era produzida através do que não havia, acrescentar-se-ia uma qualquer informação ao sistema neuronal, tanto na musica, poesia, ou qualquer tipo de arte. Pergunto me se as conjugações de tal processo criativo não poderiam ser aplicadas a economia, criar um novo sistema económico e político que não foi ainda pensado e aplicar a esta civilização, que em decadência e desequilibrio, sugere constante horror aos seus habitantes. Uns são horrorizados pelos os demais e comuns infortúnios, outros vivem aterrorizados de se juntarem a essa massa populacional que já nela vive. É uma dictomia incrivel, essa criada por alguns génios que condena uns outros que por não saberem, ou por saberem mas não ligarem, religião de resignação, aceitam a resignação e subjugam-se à criação de um outro sujeito. Há em ainda quem diga que esse mesmo acto nos aproxima de deus, não condeno, se deus já todos nós formos, e se existe esse mesmo conceito, ou mesmo o outro, que por sinal eu aqui falo. Mas falo em muitos, e em todos ponho essa possibilidade e desprezo, e consciente condeno a indiferença.
Não quero ser radical, e reivindicar qualquer coisa de utópico, mas sistemas económicos e políticos e existem na natureza há mais tempo que nós, e pensando nisso, e no que se formou, julgo que a solução não está na criação de um sistema, essa informação surgida do vazio a muito que nos indigna e se processa em tal descriminação em relação a tantos, que os outros, sorriem, pois, claro, também eu sorriria se na posição deles me encontrasse.
Deixemo nos de merda, isto é, a dependência destes sistemas cria, e novamente, origina do vazio, ou de informação inexistente, uma bola de fogo que não cessa, e contamina a humanidade. Para se com esta merda, e que se dedique tempo à pratica de boas condutas, e porquê? Tal criação, do vazio, ou de dados adquiridos que originam qualquer coisa será mais correcta. Se eu não roubar não preciso de policia, e se o individuo necessitado tiver problemas "dar-lhe-ei" ,não dando está claro, dignidade o suficiente para puder sustentar a si e aos seus sonhos. E se o bandido for um assassino, recuso me a pensar nisso, na roda das emoções teria disciplina para controlar esses mais primitivos instintos. Nada de contradições , moral e ética, ou só ética, é um assunto complicado, e não quero entrar em grandes deambulações filosóficas, pelo o que prefiro ir directo ao assunto, e dizer que, neste período da evolução restam duas saídas, a da criatividade positiva e a negativa, escolham um caminho.

3 de novembro de 2011

Sem imaginação, saiu..abraço

Perguntava-me onde andarias, se estarias bem, onde permanecias. Não sabia, nunca o soubera, e inverso talvez nunca fora mentira, mas como saber? não sei. A psicologia e as suas manhas, e quando mais nada sei dizer a não ser falar de mim. Quero quebrar com este ciclo infernal, e depois? que ficaria? vazio o ser sem ego? espera, claro que não, exste o id e o superego que se cruzam e mantêm a forma da psique. Ou, não daria para fugir, talvez num sonho, num sonho daria para fugir. Não desistas, permanece, diria o meu id ao meu ego, mas ele, ele já não queria saber, e eu também não. Não te conhecia, como o podia fazê-lo? não, é impossível. Mas tenta, nunca se sabe, e a comunicação interpessoal é importante. Sistema de três equações que se tem que resolver, e quem resolve essa equação? Consciência? Ou é parte integrante da mesma equação que não tem resultado? Pouco importa, fragil criatividade e imaginação. Não falarei mais de mim, não retratarei nada sobre mim e pouco importará aquilo que possa dizer, mesmo quando te crio crio-te a minha maneira e a minha pessoa, e não vale a pena idealizar o afastamento que não é possivel fazer. Junta-te e não desistas. Onde andarás? que dizias? Não compreendo no total toda a verdade, não a consigo ver. Espero que não a digas, ninguem a pode dizer, mesmo quando se fala de si próprio. Por isso desisto de falar de mim. Desisto de falar de ti. Desisto simplesmente de falar de seja do que for, e fico a espera para saber qual terá sido a tua decisão.

1 de novembro de 2011

Reminiscências

Relembro a magoa do passado,
lugar negro, sombrio, assombrado,
recordo as noites secas de alegria
sem luz, sem vida, despidas.

Nada mudou desde ontem
e o presente conta o bem,
esperança vã de acreditar
que o futuro há-de mudar.

Não se vanglorie as coisas boas
em momentos de exaltação
guardar pequenos momentos,
guardá-los, com paixão.

E devagar e sem resposta,
desejo de novo contornar
mas não vale a pena fugir
ao que é o nosso sentir.

Desvaneio durante a formação

Chove no horizonte

Falsa tempestade no céu

Vagueia agua no monte

Esconde o oceano o véu

Não temerá a escravidão

Aquele que libertar o espírito

Todo o tédio será vão

Nada existe, senão rito

29 de outubro de 2011

Poema Antigo

Labirinto
Pudesse o corpo desistir
E a luz da mente perder-se.

Toda a sanidade
Alastra-se infiltrada no negro cosmo,
Em silêncio absoluto
Sempre ressonando a mesma melodia.

Futil procurar a beleza
Quando em cada canto ela se dispõem,
Despe a sua pele tímida
Deixando-se nua ao olhar.

Mas beleza essa requintada
Que o leve respirar disssipa o sentido
E o desejo por viver
Não é mais que o louco desejo de alcançar.

Vigorosa é a viagem,
O cume alto e bravio
É no cimo dos altos montes
Que beijam o céu
Esticando o corpo inocentemente
Ao sabor da natureza aleatória
Que o tempo fez existir.

E, enquanto subo as encostas ingremes,
O mundo selvagem encontra o meu,
E todas as sombras imaginárias
Tornam-se reais.

A montanha não é mais montanha
Mas um longo labirinto,
Onde se entra
Sem saber se se sai.

24 de outubro de 2011

Parque de Diversões

Sigo e baixo. Mais uma volta num qualquer parque de diversões que visito. Parar? Um dia, eventualmente, a manutenção será impossível, mas haja esperança, e que a maquinaria projectada pelas grandes industrias se mantenha a funcionar por longos e duradoiros anos. Não me atrevo a andar na montanha russa, as curvas e contracurvas e os loopings que nos transmite um extâse, uma mistura de medo com fortes sensações de elouquência , vibrações e constante impossibilidade de concentração num qualquer pensamento abstracto ou sério, assusta-me, e nessas condições, passo para o próximo corrossel, a roda gigante aparece sempre como um lugar romântico, onde no topo vejo toda a cidade, quase belo como o castelo de são jorge, onde avisto parte de Lisboa , e no alto é possível vaguear nos telhados da velha cidade. Mas, sabe-se e é sabido desde sempre que o que sobe desce, e alternar entre o cimo e o baixo lembra-me o velho pi com os seus "enos" que alguém decidiu definir, o próprio circulo é demonstração disso, e o como o relógio, um único sentido, não consigo permanecer muitas voltas neste, ao fim de conhecer a cidade, que mais podem os meus olhos observar? haverá mais algum? É claro, o mundo é cheio de oportunidades, e assim serão os parques de diversões. A casa de terror é uma próxima etapa, atravessar, sentir o medo e o constante suspense do que puderá surgir por detrás da próxima porta. Mas próprio conceito de representar cenas de alguns teatros, livros e filmes recorda-me que num mundo onde a representação é já vivida na própria vida, que não há necessidade de acrescentar um pouco mais de mentira e manipulação, e que talvez não haja mal em não atravessar os corredores que os especialistas em design projectam. Passando numa ponta a outra, assento a ideia num leve pensamento, percorrer os brinquedos, só por fora, deambular entre eles, e experimenta-los, um pouco de cada vez, para não me aborrecer.

24 de junho de 2011

Sossego

Sossego. Eu sossego. Tu sossegas. Eles Sossegam.
Comboio.
Nada para fazer.
Entendiado. Eu entendeio-me, Tu entedeias-te. Eles entendeiam-se.
Aborrecimento.
Aborrecido.
Tédio
Fazer tempo.
Esperar..

25 de abril de 2011

Ying Yang

Penso e sinto o coração a disparar, a ansiedade a crescer e a respiração a pregar-me partidas. Sinto o ar a pesar dentro de mim, quebrando-me os joelhos e largando-me no chão. Qual tronco abatido e tombado pelo vento, que empoeira o ar à sua volta. Tusso compulsivamente todo este lodo na tentativa de me libertar das areias movediças que me empurram para o ar, cortando o meu elo terrestre. Agarro fortemente aquela vontade que me faz voar em direcção ao chão que me abraça. Como um troféu no final de uma corrida disputada, em que ninguém vence a partida de uma meta que nunca existiu.

Sorrio enamorada por este ar que me circunda e que me eleva ao um clímax sentimental puro. Sinto a paz a entrar pelos poros da minha pele que arrebata e me prende neste paraíso. Como um avião de destino paradisíaco que voa livremente sobre um mar tumultuoso. Entro determinada pelas ondas que saciam a fome do toque aveludado de uma rosa. Envolta naquelas partículas transparentes que me elevam ao azul celestial e me deitam docemente no primeiro novelo branco que encontram. Enrosco-me num abraço apertado de forma a sentir aquele algodão em mim.

Oh que dor deliciosa que brota em mim como feridas abençoadas.

13 de abril de 2011

Decidia-me a concentrar-me por completo nesta nova empresa. Não iria desistir, mesmo quando havia pouco a meu favor. Mas o pouco abria uma leve vaga de esperança, na qual era possível pousar e sonhar. Romântico, chamariam os racionais desenvergonhados vazios de pudores e preconceitos,se as suas justificações tivessem lógica perante os libertinos zonzos e eloquentes ainda se compreendia, mas ou seriam ou não o que haviam querido para sua alternativa. Na verdade, é infiel a imagem que posso fazer do que veio a seguir. Era tarde e já só pensava em dormir,aquela hora da noite por de certo poucos indivíduos estariam acordados. Mentiram, muitos deles resplendeciam as suas insónias em actividades um pouco ou mais lúdicas, mas julgo puder garantir que nenhum deles fazia o que o fazia. Nem que fosse porque nenhum deles estava no lugar onde eu me encontrava, no vazio completo. Havia viajado quilometros

10 de março de 2011

Viva La ....

Era fim da tarde, e o céu negro pelas nuvens e pela a poluição que o dia acumulou, escondia o sol na linha longe do horizonte das colinas, onde a cidade se erguia sobre uma pequena timidez e pouco a pouco, pequenos pontos luminosos pintavam as ruas, onde a multidão agitada, regressava a casa após mais um longo dia de trabalho. A oeste, pequenos raios de luz expeliam-se em rasgões ferozes, penetrando a cidade com um sangue estonteante, que se misturava aos raios tão reais como só o sol oferece ao adormecer. Era a luz refractada. Um laranja tão profundo e brilhante que deslumbrava as mais duras almas. No alto, em dias timidos, a lua esboçava o mais belo sorriso. Sorria-me. Não só a mim, mas a quem a contempla-se....

Chega!

Havia-se criado naquela época a ideia que o velho pastor renunciara um cargo de alta importância na classe eclesiástica e que havia preferido isolar-se no conforto do monte. Certo é, que poucas pessoas conheciam a sua historia . Não sei se gostava de permanecer isolado, mas assim vivia, deslocando-se apenas quando necessário à mercearia ou aos correios. Era um remédio natural para os seus pensamentos, diziam alguns, que o julgavam, contaminados pelas as ideias filosóficas que surgiam banalmente na boca do povo. Afinal a televisão tinha esse poder, desconstruir a ideia e reconstrui-la redundante nas mais variadas formas.

A história do nosso herói, ou pelo menos o assunto que aqui nos trás, começa à cerca de dez anos atrás, quando ainda era um reputado Bispo. Bastante respeitado por toda a igreja, surgiam boatos que haviam planos para o tornar Cardeal. Já nessa altura, o Bispo estava relutante se havia escolhido ou não um caminho adequado. Já com cinquenta anos, pesava-lhe na cabeça os textos literários que tinha lido, aquém do que a igreja o ensinara. Na verdade, a sua crença desvanecera, ou em menor grau, tornara-se uma frágil folha que ao libertar-se da velha árvore demorava a pousar em terreno duro para a próxima transformação, vagueando ainda nos lençóis do vento, que nem sempre tornava o seu destino agradável. Não perdendo em qualquer dos casos a certeza que na mesma se encontrava um grande grau de verdade, duvidava em toda a palavra proclamada pela instituição a que pertencia. Já não reconhecia o respeito que outrora acreditara haver. A humildade e a altruismo que a mesma defendia, via-as como simples construções teatrais, para que nos bastiadores as grandes decisões fossem tomadas, sem que o publico soubesse a verdade, pois nas peças os autores esforçavam-se para representar o seu papel, e quanto mais afinco e dedicação, mais os seus actos eram tidos como certos e adequados. Chegara-se mesmo ao ponto, em que tal era a tamanha eloquência, que a representação misturava-se com o real, e na miscelânea, a loucura tomava a sanidade, não se compreendendo em concreto o que estaria a ser representado. Foi neste contexto que o bispo decidira-se retirar.

As razões que levaram o nosso personagem a tomar essa mesma decisão ficam aquém da nossa tentativa de explicação. Não é possível esboçar um quadro que preencha tais requisitos com as evidências que foram possíveis "juntar".


Ao chegar ao monte recordou-se dos tempos de criança, pelas palavras do próprio "tanto tempo de vida citadina fez-me esquecer as mais belas manhãs de abril após a chuva nocturna, a natureza que os meus olhos já pouco visitavam nos dias agitados foram atingidos como um relampago na paisagem aberta". De seguida, descreve
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Que horrivel! Jamais voltarei a escrever.

19 de fevereiro de 2011

O mundo estava Vazio

O mundo está vazio. Folha Branca ou preta, talvez repleto de cores, mas está vazio. Não há mal. Vou preenche-lo de coisas. Começo por um traço, um linha entre dois pontos onde a recta seria o caminho mais facil a percorrer, mas eu vou inclinar um pouco, fazer um curvatura para a direita no ponto médio, ficando parecido com uma semi recta, mas diria mais uma semi-elipse, não tão intensa é certo, é uma curvatura pequena. Depois copio , usando a simetria, ficando a curvatura para a esquerda. Tenho assim duas curvaturas, uma ao lado da outra, que formam um tronco perfeito de uma arvore. Depois desenho o chão, e desenho as raizes desordenadamente, não que elas assim sejam, mas certo é que se vão repetindo como fractal, assim como os ramos que decido também colocar. O mundo deixa de estar vazio. Existe agora uma arvore na folha branca. É inverno, e o outono levou as folhas, pelo o que não necessidade de elaborar um grande plano nesta epóca. Existe mesmo assim beleza na simplicidade na chuva com que decido preencher também a folha. Começa haver contornos mais exactos do objectivo. Deixo assim, no chão de terra, a árvore enraizada. Espero que o vento não a leve.

12 de junho de 2010

Transcendência

Sinto uma vontade difícil de explicar. Uma vontade de estar, ser, sentir, não sei o quê, não sei onde, nem muito menos o como e o porquê!
Sinto-me confusa, enrolada nos meus próprios pensamentos, nas minhas próprias palavras, nos meus próprios sonhos.
Sento-me cabisbaixa, mãos entre os joelhos, olhar vidrado nas pedras desta calçada, mais preocupado em fitar os relevos irregulares e geométricos do chão que piso.
Ouço o vento que me atravessa e faz esvoaçar os cabelos soltos, livres, sem limites... que me acariciam a face e me abraçam o pescoço.
Cheiro o sol que bate em mim, em cada centímetro de mim, e me clona no chão... tamanha personagem prisioneira a mim e a este chão que me pisa.
Saboreio o ar que respiro, absorvendo toda a sua imensidão, toda a sua simplicidade, todo o seu poder.
Tudo à minha volta permanece numa beleza estática e intemporal, como se o mundo estivesse em pausa, enquanto eu apreciava sozinha a sua beleza... Levanto e caminho neste chão, levando a vontade, o vento, as pedras da calçada, a sombra e o ar. Um só ser único! Sinto-me envolta em magia, leve, pura, com um poder incalculável que nem eu nem ninguém poderá alguma vez quantificar! Fecho os olhos e deixo-me levar pelos trilhos que o vento constrói para mim, simplesmente para eu passar! As flores curvam-se perante mim e oferecem-me as suas pétalas, tamanha dádiva que forma a ponte para o paraíso. Caminho descalça neste chão aveludado e perfumado que ganha cor à minha passagem. E... voo... Perco o sentido ao momento, perco o rumo do vento, perco a vontade do sol, perco o pensamento... Flutuo vazia no vazio que me circunda. Deixo de sentir o ar que me toca, de ver a cor do meu corpo, de cheirar este mundo.
Desapareço no ar como a névoa da manhã. Silenciosa... Subtil... Em paz... Feliz...












E acordo...

8 de fevereiro de 2010

Brilhava

Brilhava a luz tremule no cimo de uma vela, deixada num prato de prata revestido em ouro.
Entre as paredes castanhas, de carvalho antigo, sobre uma mesa que completava o carácter pobre e rústico da velha cabana. Na cama, que chegava a altura dos joelhos, gemia um corpo desassossegado. Berrando sem palavras sons que ardiam em chamas como o crepitar da raiva do fogo engolindo toda a montanha para tocar o céu. As palavras eram incompreensíveis mas agitadoras. Ao seu lado, uma velha senhora acariciava o seu rosto cantando uma lira apaziguadora. Não eram palavras, mas distinguíveis os sons que libertava. A velha mulher entoava numa velha linguagem que à muito não se ouvia, e que retornava, no momento em que o corpo se torcia e se perdia no mar turbulento. A cada momento que passava, o corpo contorcia-se mais, tornando a voz mais pesada, grave e agressiva.

O silêncio ao redor era absoluto, as árvores, debaixo da noite que afugentava o olhar divino com as nuvens negras tempestuosas, permaneciam paradas no tempo.
O vento deixara de soprar. Os pássaros ouviam ansiosos. A luta começava.

Ressoava, no bosque infinito, a voz grave e violenta, apaziguada na musica doce e terna.

31 de janeiro de 2010

Um Momento Efémero

Acordo e revolto-me na cama com aquela brecha de luz que teima incansavelmente ferir-me os olhos. Mais um dia que se avizinha e eu ali, preocupada com aquela arma inofensiva. Luto no meio dos lençóis para chegar ao controlo remoto da TV, e ligo-a. Olho então para o lado e... tudo está vazio. Apenas as sombras trémulas dos móveis e dos cobertores mal dobrados dão vida a este quarto. Eu continuo ali... morta... para a felicidade. Ganho forças para levantar todo este peso moribundo e vencer a gravidade que teima em fazer este jogo de forças comigo. Percorro os corredores de forma transcendente e deslizante como se algo ou alguém me transportasse por este espaço que é só meu. Só meu. Ligo a torneira da banheira que depressa começa a enublar aquele espaço, como se de um céu se tratasse. As nuvens começam a ganhar formas boiando em cima daquela água quente. Entro devagarinho naquele paraíso e deito-me. Fecho os olhos...

É então que ouço a porta da rua a bater, como um chamamento ou encantamento que me envolve naquele momento e me faz sorrir. O rádio que passa os dias mudo de repente, ganha magia e liberta o pó acumulado pelos séculos preenchendo a casa de notas. Juntamente com o bater ritmado do meu coração ouço os suaves toques no soalho que vais deixando à medida que passas. Hummm... Sinto um leve perfume rosal bem perto de mim, assim como a tua respiração que me dá o alerta da tua existência. Sorrio... e sinto um leve toque veludado e quente nos meus lábios que me provoca um chorrilho de conceitos que até ali se encontrava adormecido no meu ser. Encaixas-te em mim como se de peça de puzzle perdida no tempo se tratasse. E vivemos ali os dois, eternamente, naquele paraíso improvisado onde só o nosso coração se ouve no meio dos ecos da paixão. Como tudo começou, tudo acaba e perco o sentido ao mundo e à tua presença. E... abro os olhos...

Atordoada com os pensamentos que assolam freneticamente nesta mente confusa, olho em redor à procura de um pedaço da tua existência. Serias um sonho?


Talvez sim... talvez não... Mas ficarás para sempre marcado neste espaço. Tão meu... Tão teu... Tão nosso!

17 de novembro de 2009

Dúvidas

Um pequeno desabafo durante esta noite que se avizinha.. Gélida... Seca...
Observo atentamente as pessoas de outrora... Tão distantes... Tão diferentes... Será que perdemos? Não faço ideia. Confusões, distracções, falta de fé!
Porque será que só abrimos os olhos quando as perdas nos são esfregadas na cara? Porquê... Enfim... Temos que continuar a conviver lado a lado com as nossas decisões.. Quer tenham sido certas... Ou não...

10 de novembro de 2009

Houvera sempre antigos Reinos

Houvera sempre antigos Reinos,
onde a embriaguez dotava o espírito,
e o ponto isolado do espaço
era estrela sombria do universo.

Houvera pouco por onde andar
quando a razão perecia
e o espírito da verdade
sucumbia à decadência.

É hora de acordar,
de usar os cinco sentidos,
sentir a efémera evidência,
que perdurará infinita,
no profundo céu azul.

12 de outubro de 2009

Não seria necessário muito...

Não seria necessário muito, não estivessem as árvores esmorecido ao tempo solene e perdido as suas folhas, permanecendo despidas e desprotegidas, aos ventos fortes que a fúria da terra decide condenar a sua mais petulante criação. Não tivesse eu já perdido e longe, possuído de uma eloquência que o Ser exige, que toda a experiência impulsa, num acto que acontece, vago e obscuro, falsamente conduzido pelo o espírito que reclama a Revolução.
Não seria necessário muito, fosse eu uma virtude e o meio a minha razão. A minha certeza demonstrável axiomaticamente. E alma adormecesse num velho recanto, onde ninguém vai, onde ninguém procura, escondida, desaparecida, levando consigo aquele dia fresco e suave, quando o sol aquece e não queima, e o momento belo e sublime, aquele onde os sentidos inebriados trazem à terra o paraíso continuamente prometido.
Não seria necessário muito, se a procura dos conceitos inúteis, minúsculos ao olhar infinito do oceano, permanecessem invisíveis ao corpo mais sensível. Não seria necessário muito, não cantassem as estrelas, em vozes continuamente intermitentes, a frustração de estar longe, demasiado longe, de tudo aquilo que nos liga.

29 de setembro de 2009

Existe no Ar

Existe no ar uma certa opressão; Uma poluição escondida que invade as almas e as proibe-as de se vestirem da sua formosa e simples natureza. Confude-as. Dando-lhes uma falsa virtude desdenhando as suas ideias, repetindo as verdades em torno de uma lógica circular.

É cedo, e o mundo nasce aos meus pés; A manhã, ligeiramente temperada, com um gosto humido de um dia que se promete quente, encontra o meu rosto desengonçado, perene, enfrentando o infinito e imensidão de luz que o sol decide trazer. O dia expande-se, contorna-se em meu dorso, somos um, eu e ela, eu e o mundo, eu e as pessoas. Um uno heterogéneo, pertencentes a uma mesma epopeia, um sonho, um desvaneio, que se repete e repete, num ciclo perfeito, quase lógico, quase racional, não houvesse no seu ventre a inconstância, a emoção, o sentimento; Não houvesse nesse estreito caminho, no mergulho infinito da repetição, o momento livre, de opção instântanea; Compreender que existir é descobrir, que desistir não é falhar, e que morrer é viver.